George Câmara: “Foi o Zé"?

Capa do livro " A outra História do Mensalão" do jornalista Paulo Moreira Leite
Jornalista
dos mais respeitados e com vasta experiência, o autor foi diretor da
revista Época e redator-chefe da Veja. Com maestria e consciência
crítica, Paulo Moreira Leite aborda as principais contradições de um
processo que, segundo o colunista Janio de Freitas, no prefácio, “antes
de ser a Ação Penal 470, o chamado ‘mensalão’ já estava sob uma ação
penal. Executada na imprensa, na TV, nas revistas e no rádio. Uma ação
que mal começara e já chegava à condenação de determinados réus. O que
houve nos meios de comunicação foi o desprezo excessivo pela isenção”.
Em
entrevista publicada no jornal Folha de São Paulo em 11/11/12, o próprio
jurista alemão Claus Roxin, um dos criadores da “teoria do domínio do
fato”, reconhece um mau uso dessa teoria quando se condena alguém apenas
pela posição hierárquica, sem a prova de que tenha comandado o fato,
emitido uma ordem.
O “não é
possível que não soubesse”, ao invés de prova, foi na verdade um
artifício usado pelo relator no STF para atender à suposta opinião
pública, diga-se, opinião publicada. Mas também o mesmo jurista alemão,
na entrevista já mencionada, vai além. Perguntado pelas jornalistas
Cristina Grilo e Denise Menchen: “A opinião pública pede punições
severas no mensalão. A pressão da opinião pública pode influenciar o
juiz?” Responde: “O problema é que isso não corresponde ao direito. O
juiz não tem que ficar do lado da opinião pública”.
Ao
final da leitura lembrei-me de um texto do escritor pernambucano Nestor
de Holanda, no seu livro de crônicas “Gente Engraçada”, publicado pelas
Edições de Ouro, Rio de Janeiro, em 1962. O texto recebe o título de
“Foi o Zé!”. Li-o aos 11 anos de idade, no primeiro ano do Ginásio
Agrícola de Ceará-Mirim, em estudo dirigido de língua portuguesa, sob
orientação do nosso Professor Cirilo, em 1971. Transcrevo integralmente:
“Foi o Zé!
Zé
nasceu no Dia dos Mortos. Ainda no Todos os Santos, a mãe lhe sentiu as
primeiras dores, mas ele esperou pelo Finados, para vir ao mundo. A
família e os vizinhos queriam Maria; nasceu Zé. Pior ainda: ia ser Maria
José e foi José Maria. Um tio desavisado levou-lhe uma boneca que dizia
‘mamãe’. Zé guardou a boneca por muito tempo. Era um conservador.
Quem
começou a vida assim, devia ter sido muito pacato. Mas, não. Zé mostrou
quem era, logo no Finados em que completou o primeiro aniversário.
Puxou a toalha da mesa e atirou no chão todos os bolos confeccionados
pelas tias, para a comemoração. Quando a mãe entrou na sala e perguntou
quem fizera aquilo, o pai respondeu: - Foi o Zé!
Desde
então, a frase ‘Foi o Zé!’ ficou pronunciada, anos e anos seguidos.
Estendeu-se pela cidade e atravessou fronteiras. Quando morreu um
canário de briga, não foi o gato: foi o Zé! Começou matando passarinhos.
Aos oito anos, passou a matar pombos. Aos doze, já preferia galinhas.
No Finados de seus quinze anos, foi quem derrubou o peru, com uma
pedrada. Tudo o que aconteceu de mal, na pequena cidade, desde que o pai
pronunciou a frase pela primeira vez, foi o Zé.
Na
escola apelidaram o globo de ‘América’. Por mais que a professora
explicasse que aquela bola representava o mundo, os meninos chamavam a
bola de ‘América’. O globo estava sempre coberto com uma flanela
amarela, bordada com linhas vermelhas. No dia em que a flanela
desapareceu, a professora não notou. Mas, na aula, por acaso, fez, a um
Pedrinho, a clássica pergunta:
- Quem descobriu a América? E o Pedrinho, delator contumaz, respondeu, sem vacilar: - Foi o Zé!
De
outra feita, arranjou um pedaço de arame e resolveu, no recreio,
brincar de vacinação. Furou o braço de todos os meninos, como se os
estivesse vacinando, de verdade. E o resultado foi que a estória se
repetiu: quando, na aula, a professora perguntou quem havia inventado a
vacina, o mesmo Pedrinho fez nova delação: - Foi o Zé!
Casou
– isto é: casaram-no. No Dia de Todos os Santos, nasceu Maria José,
menina loura, meiga, acomodada. Mas, já então, o descobridor da América e
inventor da vacina estava preso, em outra comarca, cumprindo pena pelo
crime de homicídio premeditado. Porque aquele saudoso Pedrinho apareceu
baleado. O coronel, meio surdo, que o encontrou já moribundo, quis saber
como foi:
-
Atiraram de tocaia? O agonizante confirmou: - Pois é! Disse isso e
morreu. Com a língua enrolada, já nos estertores finais, seu ‘pois é’
saiu muito parecido com o ‘foi o Zé’. E a denúncia se fez...
Não
sei se esta rápida tragédia serve para mostrar aos pais que, às vezes,
eles são culpados de os filhos acabarem na cadeia. O criador de nosso
herói, por exemplo, foi o criador (também) da frase que o perseguiu. E
tanto mal causou que, neste momento, estou recebendo carta, na qual me
informam que um condenado se suicidou, no Dia de Finados: - Foi o Zé!”
O
episódio tratado na crônica deixa uma lição não apenas aos pais, mas
também ao povo em geral. No julgamento da Ação Penal 470, o Supremo
Tribunal Federal age como o coronel meio surdo que, diante do estado do
acusador agonizante, utiliza provas fracas para aplicar penas robustas.
Ao
julgar dessa forma, cedendo às pressões da mídia conservadora, troca o
papel de guardião do Estado Democrático de Direito pela diminuta postura
de submissão àquele que o jornalista Paulo Henrique Amorim chama de PIG
– Partido da Imprensa Golpista.
Não
é surpresa para uma Corte que envergonhou o Brasil na ditadura militar
de 1964-1985. Apêndice dos generais, como na cassação do mandato do
Deputado Federal Chico Pinto, em 1976, por discursar contra a visita do
ditador Augusto Pinochet ao Brasil. Ou mesmo como subordinado ao
Superior Tribunal Militar – STM. Qual foi a postura do STF em abril de
1964 no episódio (na farsa) da cassação do mandato do Presidente João
Goulart? Durante o Estado Novo, o Supremo autorizou que a militante
comunista Olga Benário, grávida, fosse enviada para a morte num campo de
concentração nazista.
Ao
parabenizar o jornalista autor da publicação pelo brilhante e corajoso
trabalho e recomendar a leitura, quero destacar as palavras do cineasta
Jorge Furtado a respeito do livro: “O bom jornalismo é o alimento da
democracia, o mau jornalismo o seu veneno. Os textos de Paulo Moreira
Leite sobre o julgamento sintetizam aquilo que o jornalismo tem de
melhor: fidelidade aos fatos, capacidade de organizar e relacionar
informações, coragem de raciocinar com a própria cabeça, enfrentando a
manada. E talento, que não faz mal a ninguém. O futuro agradece.”
*George Câmara, petroleiro, advogado e vereador em Natal pelo PCdoB
Publicado no Vermelho em 07/01/14
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